terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sexo

Quem vê apenas a enorme multidão das formas dos seres vivos, tende a admirar a riqueza da vida. Com efeito: que diferença entre algas e carvalhos, entre borboletas e baleias. Mas quem vê as regras que ordenam o jogo da vida, pode vir a admitir curiosa pobreza da vida. Devorar-se mutualmente, multiplicar-se, eis as duas únicas regras. Deve haver planeta na imensidão cretina dos cosmos, no qual a vida se comporta de forma um pouco mais inteligente.

Considerem o método para a multiplicação dos seres vivos. É de monotonia enfadonha, (não estivéssemos nós próprios ativamente engajados no processo). Com efeito, há dois metodos apenas: divisão de sexo. Os que se dividem (por exemplo, os uniculares), escapam e á morte. Vivem ternamente e de forma sempre mais ampla. Mas compraram a imortalidade pelo preço do sexo. Os recorre ao sexo para multiplicar-se, morrem. O salário do pecado é a morte.

Os seres primitivos (primitivos, obviamente do ponto de vista chauvinisticamente humano), são bissexuados e podem autofertilizar-se. Alturas do narcisismo inalcançáveis para nós, meramente humano. Os outros, (carvalhos, aranhas, homens, e, de acordo com alguns escolasticos, anjos), somos fornecidos munidos de dois sexos separados um do outro. O feminino, que é responsável pela multiplicação das espécies, e o masculino, um tanto subalterno, que é o instrumento graças ao qual o feminino se multiplica. Durante as múltiplas centenas de milhões de anos, (que é a idade da vida na Terra), não lhe ocorreu idéia mais brilhante para multiplicar-se. Uma pena.

O sexo masculino é uma espécie de luxo que a vida se permite. Uma espécie de apêndice do feminino. A vida é feminina. Tal afirmativa pode servir de arma para feministas em sua luta contra nós, meros machos. Mas não necessariamente. Permite argumentar, é verdade, que o macho é mera função da fêmea, argumento este levado às últimas conseqüências por certos peixes, nos quais a fêmea devora o macho depois do ato. Mas permite argumentar também que o macho, sendo luxo, é o sexo mais elegante.(Argumento ainda inaproveitado pela moda masculina). Prova do seguinte: fatos não importam. Importa interpretá-los.

Embora fatos não importem, são obstinados. Nenhuma revolução cultural pode mudar por enquanto o fato dos dois sexos. Nem as botas altas das mulheres, nem o cabelo longo dos rapazes, nem o terceiro, nem o quarto e quinto sexos que por ai passeiam. Por enquanto isto é ""dado"". Até que a biologia nos forneça outras alternativas.

Publicado originalmente em "Folha de São Paulo" em 17/02/1972.

Progredir na vida

Um otimismo desenfreado caracteriza a Idade Moderna. Para ela a vida, por exemplo, progride, bem como tudo o mais progride - "Progride" significa "tornar-se mais perfeita". E, com efeito: que progresso a ameba fez em sua carreira rumo à formiga e ao homem. E que progresso fez a própria humanidade desde o paleolítico, (no qual comia fígado fresco de mamute), até hoje, (quando come cachorros quentes). Tal otimismo ululante não era sempre o caso. A Idade Média, por exemplo, era somente da morte que se falava. A vida para ela não passava de cursinho preparatório para as provas vestibulares chamadas "morte". "Progredir na vida" significava então "avançar rumo ao eterno descanso". O que não é, afinaI das contas, uma maneira inteiramente enganada de enxergar as coisas.

O ideal seria poder ver o mundo simultaneamente dos dois pontos de vista. Ver, por exemplo, na semente não apenas a futura árvore, com suas folhas, flores e frutos, mas também o húmus que a árvore formará, depois de derrubada. (Os a lenha na lareira.) E ver a vida na sua totalidade não apenas como processo que há vários milhares de milhões de anos adquire formas sempre mais complicadas, mas também como processo que necessariamente terá involução e desaparecerá, como desapareceu em Marte. E simultaneamente enxergar na semente as sementes dos frutos futuros, e na vida como um todo, um processo que se repetiu e se repetirá em inúmeros planetas. Seria ideal, mas difícil.

É difícil, porque quem admite o eterno retorno está ad­mitindo o absurdo de tudo. Para o otimista tudo tem sentido: tornar-se perfeito. Para o medieval, tudo tem sentido: passar para o outro lado. Mas, para quem admite as duas maneiras de ver o mundo, nada tem sentido: é como a pedra que Sisifo carrega para o alto da serra, para vê-la rolar sempre de novo em direção da baixada. Admitir o absurdo é difícil.

E, no entanto, não é impossível. O segredo reside nisto: saber do absurdo e progredir não obstante. Camus, no seu li­vro "O Mito de Sisifo" sugere que Sisifo gosta de carregar pedra. E por quê não seria isto verdade? Não carregamos acaso nós também pedras com muito gosto, das quais sa­bemos, em momentos de honestidade, pelo menos duas coisas: que provavelmente nunca alcançaremos o alto da serra, e que, admitindo embora que o alcançaremos, a nossa pedra não terá grande futuro lá no alto? Sabemos ainda que o alto da serra não é necessariamente um lugar muito mais agradável que a baixada. E não obstante gos­tamos de carregar a pedra. Carregar pedras sempre assim, isto sim seria progredir na vida. Tentemos. Não custa.

Publicado originalmente em "Folha de São Paulo" em 07/03/1972.

Peleologia

Duas manchetes de jornais vespertinos inspiram este artigo: "Do fígado de Pelé depende do futuro do Brasil" e "Massacre em jogo de futebol em Lima". A primeira transporta a mente contemplativa para Roma republicana, quando seu futuro dependia de fígados de animais sacrificados. A segunda evoca Bizâncio, quando jogos circenses acabam em lutas sangrentas. O confronto entre o mito peléico e o "engagement" futebolístico acentua a alienação e o isolamento, característicos da mente especulativa. Milhares vibram em simpatia com o fígado de Pelé, milhares oferecem suas vidas em holocausto a favor do gol peruano, ameaçado pelas forças tenebrosas uruguaias, enquanto a mente do intelectual continua fria, fechada em sua soberba prepotente. O propósito do presente artigo é a tentativa de apreciar o surgir dos mitos futebolísticos do ponto de vista do intelectual prepotente.
O pensamento existencial e a psicologia da "profundidade" procuram nos mitos explicação da nossa situação e do nosso comportamento. Mitos são revelações do Ser, e todo mito revela o Ser a sua maneira. Assim, o Ser revelado no mito estabelece uma situação, o mundo. Este mundo e nossa atuação nele foram estabelecidos por alguns mitos, estes são projetos de nossa existência, e todas as nossas escolhas estão pré - figuradas neles. Com efeito, nossa vida em particular e a civilização da qual participamos em geral, não passam de realizações das potencialidades contidas nos mitos. O mito de Adão, por exemplo, estabelece um mundo dentro do qual temos corpo e alma, Adão é um dos nossos projetos, e nossa civilização realiza, progressivamente, as potencialidades desse mito. Realizando, de mil maneiras sutis o nosso corpo (inclusive os seus instrumentos) e a nossa alma (inclusive religião, ciência e artes). Somos, pois, prisioneiros dos nossos mitos, e deles não podemos escapar, nem de nossos projetos, a não ser que os realizemos integralmente, esgotando-os nesse processo. Um projeto inteiramente realizado é, nesse sentido, um fim de mundo. A tecnologia pode ser interpretada (aliás, é efetivamente interpretada por muitos pensadores), como realização total dos projetos do Ocidente. Neste sentido alguns afirmam iminente o fim do mundo. A bomba H não passaria, deste ponto de vista, o último elo de uma cadeia contida "em projeto" nos mitos do Ocidente, por exemplo, no mito da torre de Babel e de Prometeu.
A história do Ocidente seria, portanto, um vasto ciclo que brota de mitos para desembocar e diluir-se neles. Com efeito, o conjunto que forma a história do Ocidente não seria senão uma espécie de exemplificação das histórias contadas pelos mitos, e o aparente tempo linear dessa história se de, tão somente, como um segmento do tempo circular que caracteriza os mitos. O tempo histórico seria um sub aspecto do tempo mítico, aliás, um subaspecto típico do projeto do Ocidente. Na realidade, a história se fecharia em circulo, e os acontecimentos históricos seriam um eterno retorno do sempre idêntico, prefigurado dos mitos. O grande círculo que seria caracterizado por epiciclos, correspondentes às suas diversas fases. Assim seria, por exemplo, a História da física, um ciclo sobreposto sobre o ciclo geral da historia Ocidental, e descrito no seguinte verso:

"Heaven and earth were
[covered in darkest night.
God said: Let Newton be!
[and there was light.
The devil, hollering hó!
Let Einstein be! Restored
[the status quo".

(Céu e terra estiveram cobertos por noite escura. Deus falou: Haja Newton! E houve luz. O diabo, gritando hó! Haja Einstein! Restabeleceu o status quo).

Esta teoria cíclica da história tem seus atrativos. Concorda com o pensamento nietzscheano (o eterno retorno do sempre idêntico como vontade para o poder), pensamento este que é uma das fontes dessa teoria. E satisfaz certos espíritos pessimistas que vivem profetizando o fim do mundo. Mas não concorda com o fato observável do surgir de novos mitos que surgem constantemente, abrindo novas possibilidades de realizações existenciais, como o mito de Pelé prova. Pelé como figura mítica representa um projeto para milhares de existências, e podemos observar ao nosso redor milhares de "pelés" em miniatura que realizamos potencialidades contidas no mito que a figura de Pelé representa. Neste sentido, e para milhares de existências, é Pelé um desvendamento do Ser, um estabelecimento de um aspecto sacral do Ser, um aspecto sacral que podemos chamar de "futebol", e a nossa soberba em nada pode alterar o fato de que o futebol é uma vivência festiva do sacro. E o que ocorreu em Lima o pode provar.

Aparecimentos de novos mitos deita por terra a teoria da circularidade do processo histórico em geral, e em particular da história do Ocidente. Enquanto aparecem novos mitos em nossa civilização estaremos sempre dispostos para novas aberturas imprevisíveis. É curioso notar, neste contexto, com o marxismo - tão visceralmente inimigo de toda mitofilia - é vítima inconsciente da teoria da circularidade. O conceito do processo dialético da história é, no fundo, o conceito da realização progressiva do mito do corpo e da alma, e peca por desconsiderar o aparecimento de novos mitos. Estes, não são antíteses de uma dada situação, mas são revelações totalmente novas. Daí ser, curiosamente, o marxismo uma variante da teoria da circularidade, embora dê aparentemente tanta importância ao progresso.

É possível tentar salvar essa teoria, afirmado serem os mitos novos variações de mitos antigos. De forma tal que a figura de Pelé seria apenas a reencarnação de um arquétipo mítico, por exemplo, de Hermes; como a figura de Brigitte Bardot, que seria a reencarnação de Afrodite, aquela nascida da espuma. Não se trataria, "sensu strictum", de mitos novos, mas do aparecimento cíclico de mitos primordiais e antigos. Pelo contrário, afirmariam os defensores dessa teoria, que a decadência do mito de Hermes e Afrodite em Pelé e Brigitte Bardot seria prova do próximo fim do ciclo. Pelé e Brigitte seriam as últimas realizações dos mitos antigos antes da bomba, ou, antes da sociedade comunista, que é afinal, um outro aspecto escatológico do mesmo processo. Mas esta argumentação me parece falha. Por que seria Pelé um Hermes decadente ? Qual é o critério que nos autoriza a proferir este juízo ? Meramente o fato de sermos adeptos do mito de Pelé, de não termos fé nele. Para nós intelectuais o novo mito não desvenda um aspecto sacro do Ser, mas, pelo contrário, obstruiu a visão da sacralidade por sua vulgaridade. A glorificação e o endeusamento de Pelé é, para nós intelectuais soberbos, uma inautenticidade. Mas a vivência de milhares de pessoas desaprova o nosso ponto de vista. Para estas milhares de pessoas são as atrizes de cinema autênticas "estrelas" , como Vênus e Marte, são "divas", como Juno. Não podemos julgar os novos mitos a partir da nossa alienação, mas somente a partir do empenho autêntico que provocam.

A seguinte observação, entretanto, deve ser feita: os grandes mitos antigos foram comunicados pela boca dos grandes poetas. Hesíodo e Homero são as nossas portas para os mitos gregos, os profetas para os mitos judaicos, os apóstolos para os mitos cristãos, Dante, Cervantes e Goethe para mitos mais novos.

Não se descobre na cena da atualidade, nenhum rapsodo de Pelé, nem de Bardot, nenhum bardo (1). São personagens á procura de um autor, são deuses á procura de um profeta, são mitos á procura de um poeta. Esta é talvez a razão por que nós, imersos em literatura, não podemos sorver existencialmente estes mitos. Mas isso não os faz falsos mitos, e sim, mitos "in statu nascendi". São, com efeito, novos aspectos do Ser que se precipitam sobre nós para serem articulados. Há neles um novo senso de festividade, de aventura, de beleza, por ora inarticulado. Clamam por uma nova civilização, por uma nova realização a superar a civilização tecnológica em vias de esgotamento. Em suma: estamos num estágio no qual carecemos de poetas.

Os leitores provavelmente discordarão violentamente da minha tentativa de profetizar um novo "panteon", a partir de Pelé e deuses semelhantes. Com efeito, admito que parece ser mito, ainda que não o faço sem uma certa dose de ironia. Não serei o primeiro a colocar flores nos altares das novas divindades, mas procuro ver a cena da atualidade com olhos não pré-conceituados. Não posso negar a evidência que aponta a direção por mim indicada. Podemos ou não simpatizar com o novo mundo que se prepara, mas creio que não devemos negá-lo. Enxergar a ponta do nariz é, afinal, o papel do intelectual no concerto da sociedade. Não devemos negar o mundo novo, mas devemos tentar influir sobre ele, e este é o propósito do presente artigo dentro das limitações modestas que lhe são impostas. Depende de certa forma de nós, poetas em potencial, a descoberta de novos mitos, quiçá mais condizentes que o mito de Pelé com a nossa sensibilidade.

O "panteon" que se prepara será constituído de divindades que não serão, necessariamente, todos do tipo das duas figuras mencionadas. A nova civilização que se prepara, e que tem no Brasil um de seus focos, não será necessariamente tão somente a realização do sacro como ele aparece no futebol e no cinema. Outras regiões festivas e aventurosas podem ser descortinadas pela visão pioneira dos nossos poetas. Nesse sentido é a "Peleologia" que estou submetendo á apreciação dos leitores é apenas um aspecto da mitologia do futuro. E aqui reaparece a soberba do intelectual que tentei refrear em vão, no curso do argumento. Não devemos admitir que apenas os fanáticos do futebol e do cinema tipo Brigitte Bardot formem e informem o sentimento existencial do futuro. Não devemos admiti-lo, sob pena de ser o nosso tipo de existir excluído do projeto que se forma. E, afinal das contas, resume-se a isto toda a nossa atividade de seres pensantes: tentar propagar a nossa maneira de ser, a fim de alcançar certa forma de imortalidade. A imortalidade é, a meu ver, o verdadeiro empenho do homem, a procura de novos mitos é outro nome do mesmo empenho. Reside na abertura de todas as nossas faculdades, inclusive as intelectuais, para o encoberto que no cerca. É preciso readquirir o espanto ante as potencialidades dos mitos inarticulados que precipitam sobre nós de todos os lados, e que podemos vislumbrar, embora nebulosamente, justamente agora, quando o projeto cansado da tecnologia se aproxima do fim do seu ciclo. Estamos, como indivíduos, e como geração, em situação de fronteira (para utilizar um termo de Jarspers). É uma situação perigosa, mas também promissora. Estamos á procura de novos empenhos, façamos com que sejam mais próximos da nossa sensibilidade que os empenhos dos fanáticos de Lima. Façamos com que as nossas vidas sejam sacrificadas, se sacrificadas devem ser, em prol de mitos um pouco mais dignos da tradição ocidental, a qual, afinal é uma corrente retilínea que desembocará, como influência tributária, dentro da nova civilização a realizar-se.

Publicado originalmente em "O Estado de São Paulo".

Os judeus nomundo

Vez ou outra aparecem na imprensa mundial, (e brasileira), artigos que questionam a lealdade dos judeus aos vários países nos quais vivem, dado o engajamento de muitos deles no Estado judeu. E outros artigos, semelhantes, questionam o direito do governo israelita em emitir opiniões quanto ao comportamento político-social dos judeus que vivem espalhados no mundo. Tais artigos exprimem, por vezes, séria preocupação por parte dos não-judeus, mas inclusive também por parte dos próprios judeus. A discussão franca e, se for possível, isenta de paixão, pode contribuir para elucidar o problema.

O problema tem raízes históricas de várias profundidades. Uma é esta: os judeus formavam, no contexto feudal ocidental, muito mais classe social que religião ou povo. Cabiam-lhes de­terminados deveres e direitos, e seu campo de ação era rigorosamente delimitado pela estrutura da sociedade. As várias revoluções burguesas do século 18, as quais culminaram na Revolução francesa, aboliram a sociedade feudal e emanciparam os judeus, (como emanciparam os servos). Os servos foram absorvidos pela nova sociedade, sem terem sido assimilados. Foram trans­formados em proletariado. Mas com os judeus não aconteceu coisa semelhante, porque a sua função feudal sempre tinha tido semelhança com a função da burguesia. Os judeus emancipados se transformaram, pois, em concorrentes da burguesia vitoriosa. Passaram a participar ativamente dos avanços da revolução industrial em todos os seus aspectos econômicos, sociais e culturais, inclusive da contestação a tais avanços. Mas embora seu papel em tais acontecimentos tenha sido muitas vezes de destaque, nunca foram totalmente assimilados pela burguesia. A explicação de tal fracasso pode ser exposta dialeticamente da seguinte maneira:

A simulação é processo no curso do qual o assimilador procura absorver o máximo das características do ambiente, e o ambiente procura absorver o máximo das características dos assimiladores. Exige, pois, para ser coroada de êxito, mutua abertura. O século 19, palco da tentativa assimilatória judia, não favorecia tal abertura. A burguesia se fechava parcialmente, por sentir concorrência judia, e ideologizava tal fechamento por anti-semitismo nacionalista e racista, inteiramente diferente ao anti-semitismo feudal eclesiástico e ritualista. E os judeus emancipados reagiam a tal fechamento ideologicamente, criando seu próprio nacionalismo, o sionismo. Entre tais ideologias, que encobriam, ambas, a situação real, se abriu um abismo que culminou na catástrofe nazista e na fundação do Estado judeu.

As ideologias continuam a confundir a cena. Mas a ênfase da confusão transferiu-se para o outro lado. Se, até os meados deste século, foi o anti-semitismo que dificultava a assimilação, muito mais do que qualquer reação judia; na segunda metade do século é o sionismo que dificulta a assimilação mais que o anti-semitismo - podemos observar, aliás, um paralelo de tal curiosa transferência de ênfase no problema da assimilação do negro pela sociedade americana.

As duas ideologias, anti-semitismo e sionismo, encobrem a realidade fundamentalmente no sentido de esconderem o fato de ser a assimilação desejável. É desejável por parte dos judeus, porque acabaria com a trágica alienação que os aflige. E é desejável por parte dos não-­judeus, porque eliminaria um ponto de atrito e enriqueceria o ambiente. A ideologia sionista encobre isto, afirmando que existem "valores" judeus a serem preservados, como se tais valores não estivessem guardados e salvaguardados há muito no conjunto da cultura do Ocidente. E a ideologia anti-semita encobre isto, afirmando que é necessário defender a "pureza" da cultura, (ou "raça"), como se cultura, (e "raça"), não estivesse há muito impregnada pelo judaísmo, e como se "pureza" fosse desejável. Assim colaboram as duas ideologias dialeticamente e tragicamente, especialmente do ponto de vista judeu.

É difícil romper ideologias. A primeira dificuldade é admitir que anti-semitas e sionistas, aparentemente tão opostos, colaboram na realidade, no sentido de evitar a assimilação dos judeus pelo ambiente. A segunda dificuldade é a dos judeus, já que o Estado judeu é agora um fato. A terceira dificuldade é a dos não-judeus em admitir que o Estado judeu é em grande parte resultado do anti-semitismo. E há outras dificuldades. Mas podem e devem ser superadas, como devem ser superadas todas as dificuldades que barram o caminho em direção da superação de todas as ideologias.

A superação de ideologias exige mentalidade madura. Não supressão da paixão, por certo, mas submissão da paixão ao controle do intelecto. Há sintomas que tal maturidade mental é atualmente possível para uma elite decisiva. Elite judia e elite não judia. Que forme frente comum contra a frente ideológica "anti-semitismo-sionismo" E tal frente é possível muito mais em países imigratórios que em países do Velho mundo. É perfeitamente possível que se esboce atualmente em terras americanas uma "solução definitiva" do problema judeu, em oposição ao anti-semitismo e ao sionismo, e em sentido exatamente contrário ao que tal expressão terrível tem para os nazistas. Os acontecimentos, inclusive em Israel, devem ser lidos com tal possibilidade em mente.

Publicado originalmente em "Folha de São Paulo" 12/03/1972

O elo perdido da comunicação

Na situação imediatamente anterior à atual revolução das comunicações era possível distinguir três níveis comunicacionais na sociedade ocidental avançada. Sob critério temático, o nível superior constituía a cultura "universal", o médio a cultura "popular". Sob o critério dos códigos o nível superior se caracterizava por símbolos que eram relativamente bem convencionados (como o das ciências ou o das artes da elite), o nível médio por símbolos cuja codificação deliberada tinha caldo no esquecimento (os das ditas "línguas nacionais"), e o nível básico se caracterizava por símbolos jamais deliberadamente codificados (como eram os símbolos dos dialéticos, trajes ou danças típicas). Mas é sob critério estrutural que a distinção entre os níveis oferece o maior interesse.

O nível superior tinha a estrutura em árvore - círculos dialógicos ligados entre si por discursos ramificados. O nível médio tinha a estrutura piramidal - discurso retransmitido por relatos hierarquicamente organizados. E o nível básico tinha a estrutura de mosaico (círculos dialógicos mutuamente isolados). Exemplos de árvores são, por exemplo, universidade, laboratórios, tendências em pinturas. Exemplos de pirâmides: escolas medias, exércitos, partidos. Exemplos de mosaicos seriam aldeias, seitas, tribos. A comunicação em árvore se caracteriza pela progressiva produção de informação nova, a piramidal pela preservação da informação disponível, a de mosaico pela distribuição dialógica de informação disponível. A dinâmica da árvore é a da historia, linearmente progressiva. A dinâmica da pirâmide é autoritária, verticalmente conservadora e a dinâmica do mosaico é pré-histórica, circularmente participatória.

A sociedade ocidental anterior a atual revolução integrava os seus três níveis de comunicação da seguinte maneira: o nível superior elaborava informação nova, o nível médio a transmitia em direção ao nível básico, e este a integrava na memória da sociedade. Tal descrição da dinâmica da comunicação é esquemática, porque despreza o feedback complexo entre os três níveis, mas por ser esquemática facilita a compreensão da cena. Em tal cena cabia a classe média, papel relativamente bem definido. Ela era portadora das várias culturas nacionais, traduzia as informações elaboradas pelo nível superior nos códigos das línguas nacionais, e as transmitia, assim transcodificadas, para o nível básico da sociedade. Foi neste sentido que a cultura ocidental era histórica como um todo, embora apenas o nível superior tivesse participado ativamente no processo da elaboração de informação nova. A classe média constituía o canal pelo qual a história informava o povo.

Tal papel desempenhado pela classe média lhe conforta caráter específico no contexto da sociedade. Era conservadora com relação ao nível superior (conservava as informações elaboradas), e revolucionária com relação ao nível básico (transmitia informação nova). Era apêndice do nível superior (servia-lhe de canal de transição), e autoritária com relação ao nível básico (constituía pirâmide da qual o último receptor era o povo). A posição da classe media no contexto da sociedade era, pois ambígua, era receptora de informações em cuja elaboração não participava, e era informadora do nível popular no qual tampouco participava. Isto explica a ideologilização, por vezes violenta, o seu nacionalismo, a sua dupla moral, o seu engajamento em movimentos revolucionários que constituiriam ameaça á sua própria sobrevivência. Em tal sentido o papel da classe média era o de suicida.

A atual revolução nas comunicações transformou a cena descrita. Consiste ela, fundamentalmente, na introdução de estrutura nova: a do anfiteatro. É ela estrutura que irradia as informações elaboradas no nível superior diretamente em direção da base da sociedade. Exemplos de anfiteatros: rádio, tevê, cinema. A árvore da comunicação superior está, doravante, ligada diretamente aos anfiteatros que funcionam como canais e como trans codificadores. Traduzem as informações novas em códigos a.D. Ho. elaboradas pelo próprio nível superior, e as transmitem rumo á base da sociedade.

O resultado é a destruição da cultura popular e sua substituição pela cultura da massa. A estrutura de mosaico se dilui, os diálogos circularem cessam, e a base da sociedade se transforma em massa passiva agitada pelas informações que sobre ela incidem a partir dos anfiteatros. Tal agitada, chamada ""opinião publica"", serve de feedback para os programadores dos anfiteatros, os quais são participantes da comunicação em árvore do nível superior.

Em tal situação, o nível médio da comunicação, a classe média, deixa de desempenhar papel funcional, e passa a ser anacronismo. Os atuais remanescentes da classe média são testemunhas de situação superada pela revolução em comunicação exatamente como os são os remanescentes da antiga popular, espécie de folclore. O fato é, por certo, encoberto por densa neblina ideológica, espalhada pelos anfiteatros, mas análises, como aqui esboça, podem contribuir para a dissolução de tais neblinas. Em suma, na situação atual a classe média não mais desempenha papel comunicológico essencial para a manutenção da sociedade, e deverá, mais cedo ou mais tarde, mergulhar, na cultura da massa. A situação atual exige somente dois níveis de comunicação, o dos elaboradores e dos programadores de informação, e dos receptores e programadores.

Publicado originalmente em "Folha de São Paulo" 31/08/1980

Das mulheres

Só se pode falar nas mulheres do ponto de vista mas­culino. Inclusive, quando se é mulher, bem entendido. Porque a nossa cultura não admite outro ponto de vista. É uma cultura masculina, e resultado de realização milenar de um projeto masculino, o ponto de vista feminino, se é que jamais conseguiu articular-se conscientemente, foi, há muito, completamente sufocado pela cultura. De maneira tal que quando as mulheres se querem libertar, visam necessariamente os direitos dos homens.

Como se deu isto? Este terrível empobrecimento pelo qual perdemos o ponto de vista feminino? Pergunta de difícil resposta, já que a perda deve ter acontecido no paleolítico, época imemorável. A única forma como podemos imaginar uma resposta é esta: em um momento remoto da história da humanidade, os homens violentaram as mulheres tão ra­dicalmente, que estas perderam a noção da sua identidade. E em conseqüência os homens perderam a possibilidade de verem-­se, a si próprios, de fora. O fato, embora triste, é por enquanto imutável. Nenhuma quantidade de sutiêns jogados fora por feministas pode mudá-lo.

Podemos, é claro, interpretar o fato, na tentativa de compreendê-lo. Assim, por exemplo, no paleolítico os homens eram caçadores de mamutes e renas, e as mulheres colecionadoras de ovos e raízes. A divisão do trabalho era conseqüência da diversidade anatômica de ambos. Os homens tinham, portanto, vida masculina, com ciência masculina, (conhecimentos objetivos de renas), e ideologia masculina, (adoração do Sol e das Estrelas que guiavam seus passos durante a caça na estepe). E as mulheres vida feminina, com ciência feminina, (conhecimentos objetivos das raízes), e ideologia feminina, (adoração da Terra que fornece raízes).

Mais tarde, em revolução enorme, mas esquecida, os homens passaram a ser pastores. Pastor: colecionador de animais outrora caçados. As renas viraram cabras. Mas mais importante ainda; o homem, embora de certa forma ainda caçador, virou também colecionador, como o foi a mulher outrora. Assimilou a ciência feminina. E a tendo assimilado, subjugou as mulheres. Simultaneamente, impôs sobre as mulheres sua própria ideologia. A adoração da Terra passou a ser menosprezada, (inferiorizada e infernalizada), e a adoração do Céu oficializou-se. Eis como talvez surgiu o patriarcado. Inexorável.

A mulher vive doravante na ciência e na ideologia masculinas. Não pode ser mulher "para si", não saberia como. Apenas pode ser, deste ponto em diante, mulher para o homem. Mas o homem pode efeminar-se. Virar consumidor passivo, (visão masculina da feminilidade). Fim do macho.

Publicado originalmente em "Folha de São Paulo" 18/02/1974

Da moral sadia

O termo "moral", que significa originalmente costume seguido pela maioria de uma dada sociedade, tem atualmente conotação embelezadora. "Imortal" não é um sujeito que se recusa a seguir determinados costumes, (por exemplo: usar gravata), mas um sujeito que comete atos feios. E muitas vezes tais atos têm a ver com o sexo. Isto porque os costumes relativos ao sexo são os mais embelezados. O termo "saúde", que significa originalmente "salvação", passa a significar algo como "normalidade". "Moral sadia" é, pois, atualmente o modelo para um comportamento, (principalmente sexual), que espelhe da maneira mais perfeita possível o comportamento normal da sociedade. É que o comportamento médio da sociedade é considerado ideal e norma.

A premissa atual do comportamento sexual "normal", (isto é: normalizado), é esta: existem dois sexos, nitidamente separados um do outro, cada qual com seu papel na sociedade, e que tentem para se unirem e formarem pares permanentes. A premissa não se baseia em fatos observáveis, a observação diz isto: embora existam dois sexos, não são nitidamente separados. Em toda fêmea há elementos femininos. Os papéis sociais dos dois sexos são fluidos e mal definidos. Os dois sexos tendem não a penas a formarem pares permanentes, mas também pares transitórios, e grupos polígamos mais ou menos passageiros. Estes são os fatos observáveis.

A "moral sadia" escolhe entre os fatos os que devem ser, (os "sadios" e "sagrados"), e reprime os que não devem ser, (os "imortais" e "feios"). Com tal escolha, a moral normaliza os fatos e empobrece o repertório do comportamento. É esta a função da moral: servir de triagem. Mas, sendo obra humana, não funciona perfeitamente. Não consegue eliminar os fatos reprimidos. Consegue apenas deturpa-los.

Há atualmente, como se sabe, crise da moral sadia. Isto pode significar duas coisas. Pode significar que a peneira moral atual esta sendo substituída por outra, (possivelmente de buracos maiores). E pode significar que não haverá mais peneira. Em outros termos: ou transvaloração dos valores, ou desvaloração dos valores. Somente o futuro mostrará qual das duas alternativas será o caso.

Uma coisa é certa: o empobrecimento do nosso repertório pela moral sadia é uma pena. Homem nenhum pode realizar-se plenamente nos papeis impostos pela moral, e, com ênfase ainda maior, mulher humana. Daí o movimento da libertação feminina. Possivelmente o termo ""sadio"" deveria ser redefinido para significar ""salvação"" novamente?

Publicado originalmente em "Folha de São Paulo" 08/03/1972